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quarta-feira, 9 de março de 2011

Vaughan Brothers – Family Style [1990]


Pouca gente sabe que, quando Stevie Ray Vaughan começou sua carreira de blues man, seu irmão mais velho Jimmie já detonava na cena texana com seu grupo The Fabulous Thunderbirds.

Stevie tentava o reconhecimento a todo custo, tendo gravado inclusive com David Bowie no multiplatinado Let’s Dance. Quando sua carreira ao lado do Double Trouble passou a chamar a atenção do mundo, o irmão mais novo de Jimmie foi aclamado como o responsável pela revitalização do blues, tão menosprezado naqueles excessivos anos 80. Alguns até o chamaram de o novo Hendrix e essas bobagens que aparecem quando um talento desponta.


O fato é que Stevie desenvolvia sua técnica em composições próprias e em covers de clássicos do blues e do rock imprimindo a sua personalidade com uma força pouco vista até então. Quem tiver a oportunidade de assistir o vídeo Live at El Mocambo verá uma das melhores versões de Voodoo Child (Slight Return), de Jimi Hendrix, da história. Esse motorista que vos escreve, mesmo sendo Hendrixmaníaco, acha a tal versão melhor até mesmo que a original.

Enquanto isso, os Fabulous Thunderbirds tornavam-se expoentes do blues texano e, querendo ou não, pegavam certa carona com a fama do irmão mais novo de Jimmie para serem conhecidos mundialmente. Os dois irmãos são feras nas composições e nas guitarras. A voz de ambos tem praticamente o mesmo timbre de “taquara rachada”, e dividem opiniões: ou se adora, ou se odeia.

Os irmãos Vaughan já tinham suas carreiras consolidadas quando resolveram gravar um disco juntos, em 1990. O resultado é a postagem de hoje: Family Style. O título não poderia ser mais apropriado.

O disco foi gravado basicamente em três locais diferentes: Memphis (Tennessee), Dallas (Texas) e New York. Isso porque conta com participações mais que especiais e músicos de primeira linha. Nile Rodgers (Chic) foi o produtor e toca guitarra. Doyle Bramhall segura as baquetas junto com Larry Aberman, além de participar da autoria de diversas músicas do disco. O cast não traz nenhum músico da Double Trouble (banda de Stevie) e nem dos Fabulous Thunderbirds (banda de Jimmie).

Sobre Bramhall, é importante lembrar que tocou com Jimmie Vaughan na primeira banda de ambos, chamada The Chessmen, a qual chegou a fazer um show de abertura para Jimi Hendrix, em 1969. Nos anos 70, Bramhall formou um grupo com o irmão mais novo de Jimmie, Stevie, chamado The Nightcrawlers. Bem no estilo família. É pai de Doyle Bramhall II, que formou a banda Arch Angels com os remanescentes do Double Trouble. Tudo em casa.



Voltando ao disco, é uma aula de feeling. Foi a primeira vez que ouvi acordeon em um disco de blues. Mas isso também significa que o play está longe de ser purista. É música feita com estilo, sem se prender a rótulos ou fórmulas. O climão de festa está presente por todo lado.

White Boots e Good Texan são cantadas por Jimmie. Percebe-se que o mais velho desenvolve um timbre de guitarra parecido com o de Alberto King, enquanto Stevie busca aquele timbre limpo de amp Fender no volume máximo. O bom humor é latente, tanto nas execuções dos instrumentos como nas letras. Confira o vídeo abaixo.



Hillbillies From Outerspace traz o Texas aos nossos ouvidos. Impossível não lembrar de Billy Gibbons e seu ZZ Top. O disco, em si, é uma pérola que não pode faltar na discografia de um bom amante do blues, do rock, das seis cordas, das 88 teclas, dos sopros...

É impressionante o que o DNA pode trazer. Nesse caso, talento absoluto.

Track List

1. Hard to Be
2. White Boots
3. D/FW
4. Good Texan
5. Hillbillies from Outerspace
6. Long Way from Home
7. Tick Tock
8. Telephone Song
9. Baboom/Mama Said
10. Brothers

Stevie Ray Vaughan (vocais e guitarras)
Jimmie Vaughan (vocais, guitarras, lap steel, órgão)
Nile Rodgers (guitarras)
Rockin' Sydney (acordeon)
Steve Elson (saxofone)
Stan Harrison (saxofone)
Richard Hilton (piano, órgão)
Preston Hubbard (baixo acústico)
Al Berry (baixo)
Larry Aberman (bateria)
Doyle Bramhall (bateria)
Tawatha Agee, Curtis King Jr., George Sims, David Spinner, Brenda White-King (backing vocais)



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Por Zorreiro

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Vivian Campbell - Two Sides of If [2005]


Todos sabem como a coisa funciona quando o Def Leppard entra em estúdio. Cada passo é dado com precisão cirúrgica, revisando os mínimos detalhes, nota por nota, tornando todo o processo quase que robótico. Buscando respirar um pouco fora desse mundo, Vivian Campbell chamou amigos e lançou Two Sides of If, interpretando standards do Blues, além de boas doses de Rock com raízes forjadas no gênero, pilar de sua formação. O mundo já tinha exata noção do que esse irlandês era capaz nas seis cordas quando se trata de Hard Rock e Heavy Metal. Mas seu talento também aflora ao homenagear os monstros sagrados de outrora.

A banda de apoio conta com feras do quilate do baterista Terry Bozzio (Frank Zappa, Jeff Beck, Steve Vai) e o guitarrista Bruce Cornett, dando o suporte de quem já é suficientemente rodado no estilo. Duas participações de peso ainda rolam. Billy Gibbons (ZZ Top) deixa a marca de seus timbres em “Like It This Way” e “Willin' For Satisfaction”. Já Joan Osborne mostra todo seu talento em “Spoonful”. Mas quem brilha mesmo é Vivian, que além de cumprir sua função primordial com louvor, ainda se mostra um grande cantor, sabendo adaptar muito bem seu registro vocal aos sons.

Mandando ver em versões para “I’m Ready” de Willie Dixon e “Come On in My Kitchen”, do pai de todos, Robert Johnson, podemos notar a destreza de Vivian. Um momento especial acontece quando Campbell homenageia seu primeiro e maior exemplo, o conterrâneo Rory Gallagher, em soberbas interpretações para “Messin' With The Kid” e “Calling Card”. O mestre deve ter ficado muito orgulhoso onde estiver. Mas o duelo com Gibbons em “Like it This Way” de Danny Kirwan é aquele típico momento que vale o disco. Aula de feeling. Algo não muito explorado no emprego principal, mas que sempre vai muito bem.

Vivian Campbell (vocals, guitars)
Michael Fell (harmonica)
Bruce Cornett (guitars)
Tor Hyams (piano, Hammond B-3)
Mark Browne (bass)
Terry Bozzio (drums)

Billy F. Gibbons (guitars on 'Like It This Way' & 'Willin' For Satisfaction')
Joan Osborne (vocals on 'Spoonful')

01. Messin' With The Kid (Rory Gallagher)
02. I'm Ready (Muddy Waters)
03. Calling Card (Rory Gallagher)
04. Come On In My Kitchen (Robert Johnson)
05. The Hunter (Free)
06. Like It This Way (Fleetwood Mac)
07. I Ain't Superstitious (Willie Dixon)
08. Spoonful (Willie Dixon)
09. Reconsider Baby (Elvis Presley)
10. Good Or Bad Times (Snooky Prior)
11. 32/20 Blues (Robert Johnson)
12. Willin' For Satisfaction (Fleetwood Mac)
13. Come On In My Kitchen (acoustic live bonus)

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JAY

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Buddy Guy – Damn Right I’ve Got The Blues [1991]

Buddy Guy tocou com Muddy Waters e influenciou guitarristas brancos de todas as eras, de Clapton a Stevie Ray Vaughan. Hendrix confessou que roubou alguns de seus licks. Ele transita com tanta facilidade entre o blues e o rock que parece, por vezes, estar sendo displicente. Um gênio da guitarra, sem sombra de dúvida. E também um amante da boa cozinha, já que é proprietário de um bar de blues em Chicago chamado Legends (seu site oficial traz detalhes da carreira de músico e o menu do restaurante).

Mas quem já pôde conferir Guy ao vivo sabe que ele é mais que apenas um guitarrista. Sua voz é de uma força surpreendente. Ele canta e toca ao mesmo tempo em uma sincronia incrível. Já foi ganhador de seis prêmios Grammy. Na turnê que passou pelo Brasil em 2009 ele tocou Hendrix como se fosse Parabéns a Você, tamanha a facilidade na execução, e disse que essa canção era de “um menino”. De chorar.

Buddy Guy é carismático, é excelente músico e compositor e já gravou com diversas parcerias de peso, como BB King, Muddy Waters, Junior Wells e John Mayall, entre tantos outros. Isso sem contar as inúmeras participações em festivais como o Crossroads, de Clapton, e o Montreux Jazz Festival.

O post de hoje é o disco solo intitulado Damn Right I’ve Got The Blues, que conta com produção impecável e participações de peso, como Clapton, Mark Knopfler e Jeff Beck. É uma compilação de clássicos do blues com a interpretação marcante de Guy, que contou também com os Memphis Horns nos metais e uma banda perfeita.

Ao ler a biografia de Keith Richards (Vida), é interessante o depoimento do Stone sobre o declínio de Chuck Berry. Como ele passou a contratar músicos de última categoria para economizar dinheiro e como isso influenciou na piora de suas composições e performances. Pois com Buddy Guy a história é exatamente o oposto. Toda e qualquer apresentação sua traz uma banda de apoio de primeira linha e convidados mais que especiais. Cada disco seu é melhor que o antecessor, e foi realmente difícil escolher um especificamente para postar.


Feeling
Destaco a faixa Damn Right I’ve Got The Blues, de sua própria autoria, que abre o disco com força total. Uma aula de blues. A partir daí, só tem petardo. Where Is The Next One Coming From? tem um baixo de soltar quadris. Mustang Sally dispensa apresentações. Rememberin’ Stevie é um blues instrumental em homenagem a Stevie Ray Vaughan, com um dos solos mais lindos já gravados em um disco de blues. Tudo com os melhores timbres que já ouvi em uma gravação. E me refiro a todos os instrumentos, não apenas às guitarras.


Eric Clapton e Jeff Beck tocam guitarra em There is Something on Your Mind. Beck também toca em Five Long Years e Mustang Sally, clássico de Eddie Boyd. Mark Knopfler deixa sua marca na faixa de abertura. The Memphis Horns fazem bonito em quase todas as faixas, com um destaque todo especial para o trabalho de Mustang Sally (de novo), sem dúvida, o ponto alto do play.





Enfim, um dos melhores discos gravados por um artista que se preocupa em apenas lançar coisa boa. Esse trabalho é um verdadeiro biscoito fino. Tem que ter e ponto.

Track List

1. Damn Right I've Got the Blues
2. Where Is The Next One Coming From?
3. Five Long Years
4. Mustang Sally
5. There Is Something On Your Mind
6. Early In The Morning
7. Too Broke To Spend The Night
8. Black Night
9. Let Me Love You Baby
10. Rememberin' Stevie

Buddy Guy (guitarra e vocais)
Greg Rzab (baixo)
Richie Hayward (bateria)
Mick Weaver (teclados)
Pete Wingfield (piano)
Neil Hubbard (guitarra)
John Porter (guitarra)
Tessa Niles (backing vocais)
Katie Kissoon (backing vocais)
Carol Kenyon (backing vocais)

Convidados mais que especiais

Eric Clapton
Jeff Beck
Mark Knopfler
The Memphis Horns


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Por Zorreiro

domingo, 17 de outubro de 2010

Tom Waits - Bone Machine [1992]

A Grande Depressão que abateu o EUA mostrou, por meio dos quadros de Hopper e o falso delírio do cinema popular americano, que a grande águia não era infalível. Depois, os sanguinolentos anos 40 e 50, acompanhados da Segunda Guerra Mundial, Guerra Fria e vários outros desastres, demonstraram que o sonho americano era nada mais, nada menos, que uma sensação de vazio e alienação misturada a um coquetel de criminalidade galopante e políticas absurdas. No meio dessa confusão, a juventude se encontrava em cima do muro; indecisos pela dureza dos tempos e a censura, que, no caso de pessoas como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, conseguiram traduzir isso para as letras. Aí nascia a poesia tão fugaz e trangressora: o beat

No ramo musical, vários artistas como Bob Dylan, Soft Machine, Lou Reed, Leonard Cohen, Nick Cave, etc, foram influenciados pelo movimento. No entanto, um dos maiores expoentes desse tipo de música, que destila tudo em pura arte, é, sem dúvida, o norte-americano Tom Waits.


Waits nasceu na Califórnia, no Estados Unidos, em 1949. Desde a sua juventude tinha contato com o palco; trabalhando em boates e fazendo pequenos shows. Em 1971, Waits assina com o selo do executivo Herb Cohen, gravando algumas demos. Logo no ano seguinte, ele lança o seu debut Closing Time [1972], que é calcado numa sonoridade folk/jazz. Apesar do bom resultado, ele ainda não ganhou as luzes da ribalta.

Waits é conhecido por associar a questão musical com a literária num estilo particular, misturando música e monólogos. Desde o debut ele foi aprovado pela crítica por ter maturidade como letrista e, principalmente, por ter um excelente senso musical. Após excursionar e abrir shows de gente como Frank Zappa e Charlie Rich, Waits cai na graça do grande público, com o lançamento de discos como Nighthawks At The Dinner [1975] e Small Change [1976]. Pulando algumas décadas, já nos anos 90, finalmente é lançado o disco que trago hoje para vocês, o transgressor, confuso, violento e emocionante Bone Machine.


Bone Machine, lançado em 1992 e ganhador do Grammy de Melhor Album de Música Alternativa, é um album que merece ser ouvido e lido com total atenção. Gravado nos estúdios da Praire Sun Recording, num porão velho vazio com chão de cimento e aquecedor (explicando assim a atmosfera do disco, com vários ecos), Bone Machine traz 16 sombrias e curiosas faixas; especialmente sombrias, já que, nesse disco, o tema predominante é a morte. Vale lembrar também a fantástica participação de músicos como o baixista Les Claypool, Joe Gore, Brain e Keith Richards.

Falar do disco inteiro é conversa pra mais uma página, então, os destaques são diversos: para a sinistra balada Dirt In The Ground, que fala sobre o único destino certo: a morte. A libidinosa Such A Scream é uma canção que possui um ritmo contagiante e um instrumental variado, assim como os múltiplos gritos contra a hipocrisia de All Stripped Down.


The Ocean Doesn't Want Me, uma canção sobre destino e morte, mantém a complexidade lírica; assim como a funesta Jesus Gonna Be Here. Waits possui um incrível talento para baladas, comprovadas pela visão melancólica das mudanças, escolhas e problemas em A Little Rain e um resumo da vida, em Whistle Down The Wind.

Fechando os destaques, a ironia doentia de Murder In The Red Barn, o tortuoso caminho da velhice em I Don't Wanna Grow Up e o lirismo de That Feel, uma canção bastante especial por expressar os sentimentos de todos os geniais perdedores. That Feel, como se não bastasse, ainda conta com a participação do guitarrista Keith Richards (Rolling Stones) cantando e tocando.

Tom Waits é um verdadeiro artista, que se arma apenas de música e palavras. Um poeta dos sentimentos mais sombrios e dos mínimos aspectos da sociedade, sem recorrer ao ''trovadorismo'' que é, muitas vezes, totalmente inútil.
Um ótimo download!

Tracklist:
01 - Earth Died Screaming
02 - Dirt In The Ground
03 - Such A Scream
04 - All Stripped Down
05 - Who Are You
06 - The Ocean Doesn't Want Me
07 - Jesus Gonna Be Here
08 - A Little Rain
09 - In The Colosseum
10 - Goin' Out West
11 - Murder In The Red Barn
12 - Black Wings
13 - Whistle Down The Wind
14 - I Don't Wanna Grow Up
15 - Let Me Get Up On It
16 - That Feel

Line-up:
Tom Waits - Vocal, chamberlin (nas faixas 01, 06 e 09), percussão (nas faixas 01, 03, 04, 05, 06 e 15), guitarra (nas faixas 01, 03, 05, 12, 14 e 16), piano (nas faixas 02 e 13), contrabaixo (na faixa 07), conundrum (na faixa 09), bateria (nas faixas 10, 11, 12 e 16) e violão (na faixa 14)
Brain - Bateria (nas faixas 03 e 09)
Kathleen Brennan - Percussão (na faixa 01)
Ralph Carney - Alto sax (nas faixas 02 e 03), tenor sax (nas faixas 02 e 03) e baixo clarinete (na faixa 02)
Les Claypool - Baixo (na faixa 01)
Joe Gore - Guitarra (nas faixas 04, 10 e 12)
David Hidalgo - Violino e acordeon (na faixa 13)
Joe Marquez - Percussão (na faixa 01) e banjo (na faixa 11)
David Phillips - Pedal steel guitar (nas faixas 08 e 13) e steel guitar (na faixa 16)
Keith Richards - Guitarra e vocal (na faixa 16)
Larry Taylor - Contrabaixo (nas faixas 01,02,04,05,08,09,10,11,12,14 e 16) e guitarra (na faixa 07)
Waddy Wachtel - Guitarra (na faixa 16)

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By Alvaro Corpse

sábado, 28 de agosto de 2010

The Woodstock Experience: Johnny Winter [2009]

É óbvio que todo visitante da Combe sabe o que foi o Woodstock. Mas não custa lembrar o que o evento representa. Realizado em uma fazenda no município de Bethel, Nova York, em agosto de 1969, o festival foi um marco cultural sem precedentes. Ali, na paisagem bucólica próxima da comunidade de White Lake, reuniram-se artistas, ativistas políticos e uma quantidade impressionante de doidões, no que foi o ápice da cultura hippie, ou contracultura. E, em um regime de drogas e sexo, essas pessoas assistiram a um surreal line-up de músicos fazendo história em apresentações antológicas ao longo de 4 dias. Mais que a síntese do "sexo, drogas e rock 'n' roll", o Woodstock foi sem dúvida o mais importante acontecimento da música do século XX, e talvez de todos os tempos.

The Woodstock Experience é um box lançado em 2009, com os registros de Carlos Santana, Janis Joplin, Jefferson Airplane, Sly & The Family Stone e Johnny Winter no lendário evento de 1969. Separadamente, a coletânea contém, além da apresentação remasterizada no Woodstock, o álbum que cada artista ou banda lançou no mesmo ano.

O post que trago hoje é a parte de uma das figuras mais interessantes da música: Johnny Winter. Dono de um furioso estilo sulista e de uma rara habilidade no slide, o guitarrista texano foi, e ainda é, um dos grandes influentes do blues. Além do poder nas seis cordas, Johnny, assim como seu irmão Edgar, tem como característica de destaque o fato de ter nascido albino. Curiosidades à parte, estamos falando de uma lenda do gênero.

Em 1969, Johnny Winter havia lançado dois álbuns e começava a despontar no cenário do blues dos EUA. Iniciou no meio desse ano uma grande excursão pelo país, e um dos espetáculos dessa turnê foi no Woodstock Festival. O branquelo tocou na madrugada de domingo para segunda (17-18/08), e fez uma das melhores apresentações de todo o festival.

Johnny Winter [1969]

Segundo álbum de Johnny Winter, que já começava a aparecer para o mundo depois do ótimo The Progressive Blues Experiment, lançado um ano antes. O play é um excelente trabalho de blues elétrico.

Para a gravação do disco, o guitarrista chamou ninguém menos que Willie Dixon para tocar contrabaixo. E aqui ele faz parte da cozinha forte e presente sobre a qual o som de Johnny Winter anda livremente em solos impressionantes feitos à moda do blues sulista do começo do século XX. No estilo do texano fica clara a influência de nomes como Robert Johnson, Muddy Waters e B.B. King.

Destaque para a divertida "I'm Yours & I'm Hers", para as leituras de "When You Got A Good Friend", "Be Careful With A Fool" e do clássico "Good Morning Little School Girl", as três de Robert Johnson, B.B. King e Sonny Boy Williamson, respectivamente. Mas a melhor do disco é, de longe "Leland Mississipi Blues", do próprio Winter.

01. I'm Yours & I'm Hers
02. Be Careful With A Fool
03. Dallas
04. Mean Mistreater
05. Leland Mississippi Blues
06. Good Morning Little School Girl
07. When You Got A Good Friend
08. I'll Drown In My Tears
09. Back Door Friend

Johnny Winter - guitarra, vocais
Edgar Winter - teclados
"Uncle" John Turner - percussão
Tommy Shannon - baixo
Big Walter Horton - gaita
Karl Garin - trumpete
Willie Dixon - contrabaixo
A. Wynn Butler - sax tenor
Stephen Ralph Sefsik - sax alto
Norman Ray - saxofone
Elsie Senter, Peggy Bowers e Carrie Hossel- vocais de apoio

Live At Woodstock [1969]

Era meia noite quando Johnny Winter começava sua apresentação no festival. Depois de anunciado discretamente, iniciou o que seria um dos pontos altos do evento. O texano subiu ao palco para detonar tudo, em 65 minutos de seu característico blues elétrico regado a tradicionalismo e energia, em uma exibição memorável de criatividade e habilidade no slide.

Depois da enérgica entrada com "Mama, Talk To Your Daughter", Winter traz sua ótima composição "Leland Mississippi Blues", seguida do ponto alto do show: o fast-blues "Mean Town Blues". Logo vem o incrível cover do slow-blues de B.B. King, "You Done Your Last Good Thing now". A partir da faixa 5, Johnny passa a contar com a participação de seu irmão Edgar, que faz bonito nos vocais e com solos de teclados e sax alto. Dessa parceria de irmãos vem os fantásticos minutos de "I Can't Stand It", "Tell The Truth" e do clássico "Tobbaco Road". Com Edgar, você deve sentir no som algumas pitadas de jazz. E, para finalizar da melhor maneira possível, o hino rocker de Chuck Berry, "Johnny B. Goode", em uma de suas melhores e mais empolgantes leituras.

01. Mama, Talk To Your Daughter
02. Leland Mississippi Blues
03. Mean Town Blues
04. You Done Lost Your Good Thing Now
05. I Can't Stand It
06. Tobacco Road
07. Tell The Truth
08. Johnny B. Goode

Johnny Winter - guitarra, vocais
Tommy Shannon - baixo
"Uncle" John Turner - bateria
Edgar Winter - teclado, sax alto e vocais em 05, 06 e 07

Após a apresentação no Woodstock, Johnny Winter teve sua carreira alavancada. Consolidou-se como uma lenda do blues, fez alguns trabalhos como produtor e hoje, em idade muito avançada, continua fazendo alguns shows. Esse ano, veio ao Brasil pela primeira vez e levou plateias à loucura sem ao menos se levantar. E esses dois plays são material suficiente para se conhecer o potencial da bruxa velha, além de um 'must have' para fãs. No mais, dobradinha imperdível.

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Jp

A bruxa em SP

terça-feira, 15 de junho de 2010

The Derek Trucks Band - Already Free [2009]

"Ele faz a guitarra soar como uma cantora de jazz dos anos 50 ou 60 simplesmente soltando a voz." John Mayer sobre Derek Trucks.

É com essa capa maravilhosa e essa citação bastante sugestiva que começo a resenha de um dos melhores álbuns dos últimos anos. Already Free é uma peça rara de inspiração e musicalidade, que viaja pelos mais diversos gêneros da música negra norte-americana: soul, funk e principalmente o blues.

Por trás dessa obra-prima da música moderna está Derek Trucks, que realmente não é qualquer um. O guitarrista conquistou a crítica, o público e toda a velha guarda do blues com uma habilidade incrível no slide, sendo considerado parte da chamada "nova geração" do estilo. E, só para se ter uma idéia de quem estamos falando, ele é atualmente membro da lendária Allman Brothers Band. Sem mais.


Mas vamos ao disco. Already Free é um trabalho tão versál que realmente fica muito difícil descrevê-lo. Ao apertar o play inicial, você ouvirá a melhor faixa do álbum: "Down In The Flood", fantástico cover de Bob Dylan. É um blues moderno, mas tão southern que te leva direto para uma plantação de algodão nas margens do Mississipi. Aqui, logo de cara, Derek Trucks mostra a que veio, com dois solos indescritíveis de slide. Quanto aos vocais, se a palavra soul pudesse ser transformada em uma voz do século XXI, seria a de Mike Mattison.

A cozinha é a clássica do blues. Aqui tem baixo discreto, teclados muito bem postados e bateria em ótima combinação com outras percussões. Mas em Already Free não existem clichês. Logo na primeira audição é possível identificar um amplo leque de influências nos instrumentos. Isso inclui a guitarra, já que o próprio Trucks foi estudante de jazz.

O disco é uma combinação fantástica de soul e blues. As faixas variam, desde as mais soul, como "Sweet Inspiration" e "Down Don't Bother Me", passando pelas puxadas para o blues, como "Down In The Flood", "Don't Miss Me" e "Get What You Deserve". Mas há muito mais, como a funk "Something To Make You Happy" e as baladas (muito bem) cantadas por Doyle Bramhall II, "Our Love" e "Maybe This Time".

Quanto às outras faixas, destacam-se: "I Know", que traz muito de Allman Brothers, mas tem identidade na presença do soul e da música indiana; a bucólica "Days Is Almost Gone"; e "Back Where I Started", que conta com a voz apaixonante da também guitarrista esposa de Derek Trucks, Susan Tedeschi. Além disso, essa última canção teve o dedo de Warren Haynes no processo de composição.

E por fim, seria um pecado não falar da curta e maravilhosa faixa título, que fecha o disco. A letra de "Already Free" é praticamente um manifesto do estilo de vida sulista.

Por fim, só posso repetir que esse é um dos melhores álbuns dos últimos anos. Sucesso de público e crítica, Already Free se aproxima da perfeição. É talvez o melhor trabalho do blues contemporâneo, que se expande para outros gêneros e os incorpora muito bem. Não é um disco de guitarrista, e sim um play feito por uma banda infinitamente competente. Algo a se descobrir, música cativante, música boa. Não perca tempo e baixe!

01. Down In The Flood
02. Something To Make You Happy
03. Maybe This Time
04. Sweet Inspiration
05. Don't Miss Me
06. Get What You Deserve
07. Our Love
08. Down Don't Bother Me
09. Days Is Almost Gone
10. Back Where I Started
11. I Know
12. Already Free

Derek Trucks - guitarras
Mike Mattison - vocais
Kofi Burbridge - teclados, flautas, vocais de apoio
Todd Smallie - baixo, vocais de apoio
Yonrico Scott - bateria, percussão, vocais de apoio
Cont M'Butu - percussão

Susan Tedeschi - vocais de apoio, vocais em 10
Doyle Bramhall II - vocais em 03 e 07

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Jp


quarta-feira, 21 de abril de 2010

B.B. King & Eric Clapton - Riding with the King [2000]


No carro do B.B. King não tem mão inglesa, Eric Clapton [risos].

É com muita honra que hoje venho postar um disco antológico, com certeza um dos melhores da história do blues.

B.B. King é uma lenda viva. Nascido em 1925 no Mississipi, acompanhou as fases mais primordiais da formação do blues. Tornou-se famoso pelo seu estilo original e melódico, pelo seu vibrato inigualável e pela sua incrível voz grave. Influenciou praticamente todos os guitarristas que vieram depois, e é conhecido como o Rei do Blues.

Eric Clapton é um dos mais importantes guitarristas que já existiram. Influenciado por caras como Robert Johnson, Willie Dixon, Muddy Waters e o próprio B.B. King, o inglês apelidado de Slow Hand se tornou um grande nome na música integrando bandas como o John Mayall and the Bluesbrakers, The Yardbirds, Cream, Blind Faith e produzindo uma infinidade de grandes álbuns em uma famosíssima carreira solo.

E foi a dez anos que, depois de vários trabalhos ao vivo, os dois finalmente entraram juntos em estúdio. Disso saiu Riding with the King, um play poderoso e nostálgico que deixa qualquer bluezeiro arrepiado da cabeça aos pés.

O que se ouve aqui são dois mestres juntos resgatando o blues mais purista possível. Baixo, bateria e teclados fazem a cozinha clássica do estilo. As vozes dos dois combinam-se de forma fantástica, mas B.B. King destaca-se de forma absoluta com seus já citados vocais graves. Quanto às guitarras, não preciso dizer muito. Aqui é exibido todo o feeling desses monstros das seis cordas, num verdadeiro festival de pentatônica. Ainda é importande dizer que houve a participação de Doyle Bramhall II, Jimmie Vaughan e Andy Fairweather-Low nas guitarras.

O álbum todo é uma aula de blues. Mas seria um sacrilégio não colocar em destaque faixas como a faixa título, Key to the Highway, Days of Old (que te leva para um clube de música negra dos anos 40) e Hold On I'm Coming.

Enfim, Riding with the King é o melhor disco de blues dos últimos anos. Um trabalho memorável de dois gigantes do estilo e um download essencial pra qualquer ser humano com bom gosto musical.

01. Riding with the King
02. Ten Long Years
03. Key to the Highway
04. Marry You
05. Three O' Clock Blues
06. Help the Poor
07. I Wanna Be
08. Worried Life BLues
09. Days of Old
10. When my Heart Beats Like a Hammer
11. Hold On, I'm Coming
12. Come Rain or Come Shine

B.B. King - guitarra, vocais
Eric Clapton - guitarra, vocais
Doyle Bramhall II - guitarra, vocais de apoio
Andy Fairweather-Low - guitarra
Jimmie Vaughan - guitarra
Joe Sample - piano
Tim Carmon - órgão
Nathan East - baixo
Steve Gadd - bateria
Paul Waller - arranjo de cordas
Susannah e Wendy Melvoin - vocais de apoio

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Jp


sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sonny Boy Williamson & The Yardbirds [1963]



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"Yeah, we know these sounds. These sounds belong to one man, one man from Mississipi, USA." Sonny Boy Williamson.


Não se sabe ao certo em que dia Sonny Boy Williamson II nasceu. Segundo o próprio, foi em 5 de dezembro de 1899, mas diversos pesquisadores encontraram evidências que provam que Aleck "Rice" Miller nasceu apenas em 1912. Sonny Boy passou muito tempo morando e trabalhando com o padrasto, Jim Miller, até o começo da década de 1930. Com a gaita no bolso, viajou por todo o Mississipi e Arkansas, encontrando Big Joe Williams, Elmore James e Robert Junior Lockwood, companheiro de dupla para gorjetas. Mais tarde a dupla tocaria na Checker Records, que trabalhava com lendas como Little Walter, Aretha Franklin, dentre outros.

Sonny Boy fazia uma coisa que provavelmente nenhum gaitista fizera até então: tocava a gaita sem a mão, dentro da boca, usando técnicas com a língua - confira este vídeo de Bye Bye Bird. Em 1941, chegou a tocar num dos programas de rádio mais tradicionais do Arkansas, o King Biscuit Time, por onde também passaram B.B King, James Cotton e vários outros bluesmen importantes. O patrocinador do programa, Max Moore, começou a chamar Miller de Sonny Boy Williamson, numa tentativa de rebuscar a fama de um dos gaitistas mais famosos de Chicago na época: John Lee Williamson (por isso, agora conhecido como Sonny Boy Williamson I). Miller insistia que foi o primeiro a usar o nome, mas John Lee era a estrela do blues no momento e desde 1937 já lançava discos com aquele nome. No desenrolar, Miller ficou definitivamente conhecido como Sonny Boy Williamson. Então, Sonny Boy, Lockwood e o resto da banda formaram o King Biscuit Boys, uma alusão ao nome do programa de rádio. Mais tarde, John Lee reconheceu a autenticidade de Miller com o apelido de Sonny Boy.
Em 1951, Sonny Boy gravou seu primeiro disco com a Trumpet Records. Em 1955 a Trumpet foi à falência e Sonny finalmente foi pra Chess Records (proprietária da Checker Records). Foi lá que gravou seus principais sucessos, lançando 70 faixas de 1955 até 1964, dentre elas Bye Bye Bird, sua principal composição, sendo tocada por inúmeros gaitistas até hoje.


Imagem raríssima: Sonny Boy Williamson, Jimmy Rogers e Muddy Watters

No início da década de 1960, Sonny Boy fez vários shows pela Europa, fazendo gravações com as bandas inglesas The Yardbirds e The Animals. A gravação com os The Yardbirds foi na Inglaterra no Crawdaddy Club em Richmond, Surrey, no dia 8 de dezembro de 1963.
Depois dessa turnê, Sonny Boy voltou pro Arkansas, onde continuou tocando no King Biscuit Time. Em 25 de maio de 1965, ele não apareceu na gravação. Houston Stackhouse e Peck Curtis, que iriam ao ar com ele, esperaram até o tempo da gravação acabar, e nenhum sinal do gaitista. Peck então foi atrás de Williamson, descobrindo ele morto em sua cama, onde aparentava ter sofrido um infarto enquanto dormia naquela noite.

Sonny Boy Williamson deixou várias letras e canções, um legado construído na terra do blues com sangue de bluesman. Essa gravação prova a importância de sua gaita e voz, tendo ao fundo um dos guitarristas de blues mais citados hoje em dia, Eric Clapton, e dos outros Yardbirds.

A qualidade do bootleg é excelente, só perde pro conteúdo mesmo!

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Setlist:
01. Bye Bye Bird
02. Mister Downchild
03. 23 Hours Too Long
04. Out Of The Water Coast
05. Baby Don't Worry
06. Pontiac Blues
07. Take It Easy Baby (Ver 1)
08. I Don't Care No More
09. Do The Weston
10. The River Rhine
11. A Lost Care
12. Western Arizona
13. Take It Easy Baby (Ver 2)
14. Slow Walk
15. Highway 69


Lineup:
Sonny Boy Williamson II - vocal, harmonica
The Yardbirds:
Eric Clapton - guitar
Chris Dreja - guitar
Jim McCarty - drums
Paul Samwell-Smith - bass
Keith Relf - handclapping, shouting and foot-tapping


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Blues Etílicos - Dente de Ouro [1996]



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O Blues Etílicos provavelmente é a banda mais projetada do blues brasileiro e uma das mais respeitadas na cena internacional. Com 9 discos e 1 ao vivo, não se resumem basicamente a blues. O disco que venho lhes mostrar hoje é uma nobre e bem produzida fusão de bons ritmos.

O frontman da banda é ninguém menos que Flávio Guimarães, um dos gaitistas mais respeitados e habilidosos do mundo do blues, além de endorser da fabricante mais tradicional de gaitas do mundo - a Hohner. Flávio já lançou 19 CDs, sendo 10 deles com a banda. Dentre suas influências estão lendas do blues como Muddy Watters e gaitistas como Little Walter e Sonny Boy Williamson. Tocou ao lado de nomes como B.B King, John Lee Hooker, Robert Cray, Buddy Guy e de figuras nacionais como Zélia Duncan, Almir Sater, Ed Motta e Cássia Eller, culminando numa apresentação com Paulo Ricardo no Rock In Rio II. Suas composições e seu timbre também tem muitos elementos da música brasileira.

Ao lado de Flávio, Cláudio Bedran (baixo) e Otávio Rocha (guitarra) fundaram o Blues Etílicos, que está na atividade desde 1986, fazendo shows por casas brasileiras e internacionais. Em 87, ingressou à banda o guitarrista norte-americano Greg Wilson, diretamente do Mississipi, graduado em música pela Universidade da Carolina do Sul. Além da guitarra, divide os vocais com Flávio Guimarães e toca trompete, presente em algumas faixas do Dente e Ouro. Para assumir a percussão, veio Gil Eduardo, que mais tarde cedeu o lugar a Pedro Strasser, preenchendo totalmente as baterias. Otávio Rocha, o guitarrista dono do estúdio de garagem onde surgiu o Blues Etílicos, se auto-declara riffmaníaco, com uma técnica minuciosa e peculiar no uso do slide. E o baixista Cláudio Bedran atua como compositor de grande parte do repertório de músicas em português da banda.


Flávio Guimarães

Dente de Ouro é um álbum bastante inventivo e traz excelentes releituras e novas composições. Elementos como os antigos microfones bullet, das mais tradicionais gaitas de Chicago e pedais de expressão em algumas faixas mostram a versatilidade e experiência da lineup, além das músicas presentes na obra. Canceriano Sem Lar é de Raul Seixas, o velho Clínica Tobias Blues, numa versão mais matinal, entrando bem no tema. Liberdade é um blues com os primeiros versos tirados de Fernando Pessoa, que fala sobre o prazer da irresponsabilidade e de não cumprir um dever. O instrumental William's Influence é claramente baseada no hino da gaita cromática A Good Girl Is Hard To Find do grande gaitista William Clarke, já tocada por Flávio Guimarães nesse vídeo numa versão memorável, mais puxada ao jazz, um tom acima do original.

A faixa-título, uma canção popular, fala em coro "toda mulher ciumenta, se eu fosse a morte, eu matava". Com uma levada de berimbau e uma letra que pega fácil, é divertida e definitivamente um dos destaques do Dente de Ouro. Outro destaque é O Sol Também Me Levanta, contando de novo com a incrível gaita de Flávio numa história de ressaca: "é nessas horas que eu digo pra mim mesmo / nunca mais eu vou beber / mas vem caindo a tardinha / preparo outra caipirinha". Águas Barrentas realmente lembra as composições de Muddy Watters, porém com timbres completamente diferentes. Misty Mountain é uma das composições acústicas da banda, com as linhas de voz e gaita extremamente agradáveis de Greg Wilson e Flávio Guimarães respectivamente. Influências funk também estão presentes em canções como Dromedário, Cerveja e Albert's Mix (em homenagem a, provavelmente, Albert King, importante guitarrista que tocava com a Flying-V de cabeça pra baixo). O disco se encerra com um cover do instrumental Little Martha, da The Allman Brothers Band, numa versão muito cativante e gostosa de ouvir, com baixo, gaita e percussão. Definitivamente minha favorita do disco.

Dente de Ouro não é só mais um disco de blues. É um disco de excelente música, totalmente eclético e criativo. Um dos meus discos favoritos. E viva o blues!

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Setlist:
01. "It's My Soul" (R. Eart, S. Gomes) - 3:11
02. "O Sol Também Me Levanta" (Cláudio Bedran, Flávio Guimarães) - 3:01
03. "Cachorrada" (Otávio Rocha) - 4:21
04. "Dente de Ouro" (domínio público) - 3:45
05. "Dromedário" (Bedran, Rocha) - 4:29
06. "Misty Mountain" (Rocha, Greg Wilson) - 4:09
07. "Texas Frogs" (Rocha) - 4:07
08. "It Ain't Easy" (Wilson) - 3:30
09. "William's Influence" (Guimarães) - 3:28
10. "Canceriano Sem Lar (Clínica Tobias Blues)" (Raul Seixas) - 3:01
11. "Albert's Mix" (Bedran, Guimarães, Rocha, Wilson, Pedro Strasser) - 0:54
12. "Águas Barrentas" (Bedran, Rocha) - 3:02
13. "Mambo Chutney" (Bedran, Strasser) - 1:28
14. "Liberdade" (Márcia de Carvalho, Fernando Pessoa) - 3:04
15. "Elefante" (Bedran, Guimarães, Rocha, Wilson, Strasser) - 1:15
16. "Cerveja" (Bedran, Wilson, Fausto Fawcett) - 3:31
17. "Little Martha" (Duane Allman) - 2:43


Lineup:
Greg Wilson - guitarra, voz
Flávio Guimarães - gaita, voz
Otávio Rocha - guitarra
Cláudio Bedran - baixo
Pedro Strasser - percussão


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Eric Clapton & Steve Winwood - Live From Madison Square Garden [2009]

Muita mudou nos últimos 40 anos. A Alemanha se unificou, o AC/DC trocou de vocalista, R&B agora é Hip-Hop. Mas, como prova o disco que posto hoje, Eric Clapton e Steve Winwood continuam músicos sublimes.

Falar de Eric Clapton é difícil, pois poucas palavras são dignas dessa lenda viva do blues. Clapton está entre os maiores guitarristas da história, condição adquirida tocando no Bluesbreakers de John Mayall, no Yardbirds, no Cream, no Blind Faith e principalmente em uma carreira solo brilhante.

Steve Winwood é um multiinstrumentista dono de uma das mais belas vozes do rock. Passou por várias bandas, como o Spencer Davis Group e Go, mas é conhecido internacionalmente como líder do Traffic e vocalista do Blind Faith.

E foi para comemorar o aniversário de 40 anos do álbum do Blind Faith que os dois se reuniram em uma turnê histórica que resultou nesse registro magnífico, gravado no majestoso Madison Square Garden em Nova Iorque.

Se essa parceria gerou um clássico do rock em 69, agora ela gera um live impecável. Os dois senhores estão inspiradíssimos. Clapton é aquele velho monstro da guitarra, fazendo com que todos os solos sejam inacreditáveis. Winwood, apesar de também tocar guitarra com pegada, se destaca mesmo nas teclas, além de cantar muito, como sempre. Aliás, os dois revezam os vocais de maneira muito interessante, como pode ser notado no refrão de Presence of the Lord.

Uma curiosidade sobre o repertório é que Clapton escolheu as músicas favoritas da carreira de Winwood, e vice-versa. E bem, que repertório! O primeiro disco abre com o genial hard Had To Cry Today, passa por blues e mais blues até chegar à linda Presence of the Lord e seu antológico solo de wah-wah, depois a mais faixas incríveis como Double Trouble e Well Alright.

O segundo disco é indescritível. Aqui estão os clássicos de Clapton* Cocaine e After Midnight, a fantástica Dear Mr. Fantasy do Traffic e dois covers inacreditáveis de Jimi Hendrix: uma emocionante versão de Little Wing e uma mais bluezeira e cheia de solos de Voodoo Chile. Além disso, aqui estão duas brilhantes faixas solo. Clapton toca Rambling On My Mind, clássico absoluto de Robert Jonhson, e Winwood arrebenta no Hammond com Georgia On My Mind, linda música eternizada por Ray Charles. E não podemos esquecer de Can't Find My Way Home, emocionante, harmoniosa, enfim, próxima da perfeição.

Concluo dizendo que esse álbum duplo é antológico. Qualquer fã de Blind Faith, Eric Clapton, Steve Winwood e música vai se apaixonar por ele. Um registro que vai ficar para a história e que pessoas vão ouvir mesmo daqui a 40 anos, com certeza. Baixe!

CD 1
01. Had To Cry Today
02. Low Down
03. Them Changes
04. Forever Man
05. Sleeping in the Ground
06. Presence of the Lord
07. Glad
08. Well All Right
09. Double Trouble
10. Pearly Queen
11. Tell The Truth
12. No face, No Name, No Number

CD 2
01. After Midnight
02. Split Decision
03. Rambling On My Mind
04. Georgia On My Mind
05. Little Wing
06. Voodoo Chile
07. Can't Find My Way Home
08. Dear Mr. Fantasy
09. Cocaine

Eric Clapton - guitarra, vocais
Steve Winwood - órgão, piano, guitarra, vocais
Chris Stainton - teclados
Willie Weeks - baixo
Ian Thomas - bateria

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Jp

*Cocaine e After Midnight, apesar de eternizadas por Clapton, são do JJ Cale.

John Mayer Trio - Try! [2005]


Você certamente já ouviu John Mayer. No rádio, na televisão ou alguém tocando alguma música dele no violão (provavelmente pra impressionar alguma garota) [risos]. Com boas composições e uma bela voz, Mayer se tornou um dos maiores artistas pop da atualidade, ganhando Grammy's e discos de platina.

Então, em 2005, já com os bolsos estourando de tanto dinheiro, o guitarista decidiu tocar aquilo que realmente o influenciou: o blues.

Mayer reuniu músicos com currículos impressionantes e formou um trio: no baixo, Pino Palladino, que já tocou com Eric Clapton, Jeff Beck, David Gilmour, Genesis e é atualmente membro de nada menos que o The Who; na bateria, Steve Jordan, que já foi músico de Keith Richards, Neil Young, Eric Clapton, Robben Ford, Bruce Springsteen, entre outros.

Formada a banda, o John Mayer Trio gravou, ao vivo, seu primeiro disco: Try!.

Try! é um ótimo álbum. A proposta é clara: blues rápido carregado de riffs empolgantes. Percebe-se forte influência de Jimi Hendrix e Stevie Ray Vaughan. Mayer se mostra um guitarrista poderoso, com muita criatividade, inclusive nos solos, perfeitamente destacáveis. Além disso, o músico canta com primor, com uma voz que lembra a do grande SRV. Baixo e bateria fazem eficientemente aquela velha, porém incansável, cozinha bluezeira.

Mas não se engane: as músicas pop ainda estão presentes. Gravity e Vultures são prévias que viriam em futuros discos da carreira solo de Mayer. Something's Missing e Daughters são trabalhos anteriores do guitarrista. Mas essas faixas são excelentes, com instrumentais incríveis, belos solos e John cantando muito. Música para aqueles momentos, como diria o Sueco [risos]. Com certeza uma boa introdução para os álbuns pop do músico, que também são de qualidade incontestável.

O disco ainda conta com dois ótimos covers: Wait Until Tomorrow, de Jimi Hendrix, e I Got A Woman, de Ray Charles, ambos tocados com muita personalidade. Os destaques não são faixas específicas. São os vocais, os riffs e os solos de John Mayer através do play.

Try! é um álbum muito bom, que mostra todo o potencial do músico norte-americano, que se consolidou como parte da nova geração do blues. Isso, é claro, sem perder espaço nas rádios. Download imperdível que vai render horas de boa música.

John Mayer - guitarra, vocais
Steve Jordan - bateria, vocais de apoio
Pino Palladino - baixo

01. Who Did You Think I Was

02. Good Love Is on the Way
03. Wait Until Tomorrow
04. Gravity
05. Vultures
06. Out of My Mind
07. Another Kind of Green
08. I Got a Woman
09. Something's Missing
10. Daughters
11. Try!

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Jp