"This man behind the Ego will and must go."
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Diante de todo esse anseio pelo
Aqua, novo disco do
Angra, que sai ainda em agosto, surgiu a oportunidade de ouvir o
Origins, do
Shaman. Em maio, creio, a banda já havia disponibilizado o single
Ego em seu
MySpace, mas eu não havia dado a devida importância, de modo que todas as conclusões daqui são embasadas em dois dias ouvindo o disco.
O Shaman passou por períodos difíceis: Em 2006, três dos quatro integrantes originais deixam a banda: Andre Matos, ex-Angra/Viper, Luís Mariutti, ex-Angra, Henceforth, Hugo Mariutti, Henceforth e o tecladista contratado Fábio Ribeiro, que já vinha com Andre e companhia do Angra.
A formação antiga do Shaman: Ricardo Confessori, Hugo Mariutti,
Andre Matos e Luís Mariutti
Houve um boato desrespeitoso e ofensivo na época sobre Confessori. Reza a lenda de que na época em que os ex-integrantes do Shaman saíram do Angra, o baterista ficou responsável por toda a papelada, o que lhe dava direito ao nome da banda. Porém, devido ao seu péssimo desempenho na turnê do Reason (outros boatos dizem que Ricardo usava drogas com frequência) , em 2005, seus companheiros de banda, numa tentativa de dispensar ele, ouviram "Enganei o bobo na casca do ovo! A banda é minha e se alguém sair, serão vocês!". Pessoalmente, acho isso tudo uma mentira muito mal contada, mas é engraçada (rs) e ilustra mais ou menos o que houve. Eis um trecho de uma carta de esclarecimento de Ricardo Confessori, publicada no site do For Tomorrow Fan Club, em outubro de 2006:
"É difícil prever, mas o fato é que hoje Luis, Hugo e Andre não partilham mais os mesmos objetivos que outrora juntos dividimos. Isso torna o futuro incerto, mas não intransponível, e é com essa certeza que mais uma vez firmo meu compromisso como músico, com todos aqueles que acreditaram e me apoiaram, de seguir em frente!"
Juntam-se ao baterista, então, nomes não tão conhecidos como os anteriores. Thiago Bianchi assume a difícil tarefa de substituir Matos nos vocais. Bianchi já vinha experiente, com anos de Karma, uma das bandas nacionais mais respeitáveis da cena, que contava com Felipe Andreoli (Angra) e Chico Dehira. Bianchi também é produtor, tendo produzido discos como Aurora Consurgens (Angra), Brainworms I (Bittencourt Project), The Delirium Has Just Begun (Tuatha de Dannan), dentre vários outros. Nas guitarras, o selecionado é Léo Mancini, que já havia tocado ao lado de Billy Sheehan (Mr. Big), Jeff Scott Soto (ex-Yngwie Malmsteen), membro da Tempestt. Um músico até então desconhecido assume o baixo: Fernando Quesada, o "Fumaça", amigo e pupilo na arte de produção de Thiago Bianchi.
A nova formação, a princípio, não era impressionante, até porque a antiga carregara grande parte dos fãs com ela pro
Andre Matos Solo, fãs fiéis que haviam sido conquistados desde a época do Angra. O
Immortal foi lançado em 2007, muito diferente (como se esperava, rs) do antigo Shaman. Bianchi é muito diferente de Matos, e atrevo-me a dizer que nenhum é pior nem melhor do que o outro; são técnicas e objetivos musicais muito diferentes: Andre Matos era a voz do metal brasileiro há mais de uma década, mas Bianchi, além de possuir uma voz mais expressiva do que a de Matos, mostrou já nesse disco que a voz antiga do Shaman estava ficando enjoativa. Quesada, apesar da juventude e da (relativa) pequena experiência na cena de bandas maiores, também mostrou-se competente, acompanhando os companheiros sem a menor das dificuldades. Leo Mancini já dispensa comentários sobre sua técnica, com linhas de guitarras pesadas e melódicas à medida em que as composições pediam, se mostrando um músico extremamente conveniente: o guitarrista se encaixou com perfeição na banda. Confessori fez um bom trabalho reformulando a line-up.

O novo Shaman: Fernando Quesada, Ricardo Confessori, Léo Mancini e
Thiago Bianchi
Enfim, ontem peguei o Origins pra escutar. Botei no iPod minutos antes de ir dormir, deitei na cama e deixei rodar. O disco terminou com eu sentado, impressionado, sorrindo de felicidade por ter tido a oportunidade de ouvir tal obra-prima. Imediatamente tornou-se um de meus discos favoritos, se não o grande.
Com a produção assinada pelo próprio Shaman, o Origins será lançado no Brasil apenas em setembro, mas já está disponível no mercado japonês. O disco será duplo: além do álbum, o pacote virá com o DVD "Shaman & Orchestra", gravado na República Tcheca onde foram co-headliners do festival Pragokoncert Masters Of Rock. A arte da capa leva a assinatura do designer Carlos Fides. A banda lançará um audiovisual da faixa "Finally Home", também produzido pela própria.
Enfim, o Origins é um álbum totalmente diferente do Immortal e de seus antecessores. Primeiro por ser um disco conceitual.
O disco relata a estória de um jovem chamado Amagat, membro de uma pequena tribo na Sibéria, lar dos primeiros xamãs de que se tem notícia. Ao alcançar a idade transitória de menino para homem, ou seja, guerreiro da tribo, Amagat não pretendia fazer parte daquilo; ele queria mais. Então, parte numa jornada rumo ao desconhecido, entrando em contato com os dez estágios que o levaria à iluminação. As dez faixas mostram desde o momento em que ele foge da tribo, na primeira, Origins, até o momento em que retorna a sua tribo, iluminado e desprovido do véu de ignorância e do mundo material, com a visão eterna: "aquele que enxerga no escuro: Shaman".
O segundo motivo está no estilo. Lembra vagamente o Shaman de Immortal, mantendo a proposta melódica da banda. Mas me surpreendi muito com o novo traço da banda: riffs, instrumentais e harmonias extremamente progressivas, e como eu disse, sem perder o ar melódico. Confessori, que sempre me desagradou como percussionista, mudou totalmente minha opinião sobre ele; Quesada provou de uma vez por todas que, mesmo ainda tendo muito o que aprender, é o baixista ideal para a banda.
Meu comentário sobre Mancini se inicia junto com o do disco. Cada solo é como se tudo parasse: cada nota muito bem escolhida; os riffs executados em perfeita sintonia com os companheiros, com o devido peso e velocidade. Nota-se muito já na segunda faixa do disco, Lethal Awakening, quando ocorre o despertar de Amagat diante uma grande fogueira no meio de uma floresta. Os shreds de Mancini tem o baixo de Quesada e a rápida bateria de Ricardo ao fundo, e momentos como esse vão se tornando comuns ao longo do disco. O solo de guitarra varia conforme sua base, que progride novamente pelo baixo e pela bateria: excelente.
A faixa que segue, Inferno Veil, é uma das mais progressivas e pesadas do disco. Aqui, Amagat desprende-se do "véu infernal" num turbilhão de emoções e imagens, livrando-se do medo, pai de todos os sentimentos ligados ao ódio. Com tempos quebrados e um riff que gruda, a faixa é seguida pela mais longa, dividida em duas partes: Ego. A primeira parte, acústica, é uma reflexão de Amagat, onde ele mergulha em sua própria escuridão para se descobrir, e é na segunda parte que ele se transforma no novo Amagat, maduro espiritualmente. O refrão é com certeza o mais marcante, com a letra poética e muito bonita, incentivanto uma auto-crítica.
A seguir, Finally Home é uma das mais energizadas, calma porém alegre. São as primeiras experiências do personagem com a liberdade. Seguem Rising Up To Life, uma balada que conta quando e como Amagat recebeu o "entendimento absoluto" e ascendido a vida. E assim segue-se o disco, com Amagat cego por sua própria luz, até retornar a seu povo.
A versão japonesa ainda conta com um cover de Kurenai, de X Japan. Fernando Quesada fez boas e rápidas linhas de baixo, e a voz de Bianchi se encaixou perfeitamente. Um belo instrumental ainda deixa a música melhor ainda, musicado por outro excelente solo de Léo Mancini. Definitivamente vale a pena ser ouvida, principalmente por ser uma faixa curiosa onde se vê como o Shaman trata os covers: o último, More, cover de The Sisters Of Mercy, fora gravado no Reason, de 2005, ainda com a antiga formação.
A versão japonesa do disco
O Shaman definitivamente superou-se nesse álbum que torna o rock brasileiro mais respeitável ainda, com ótimas bandas e obras. Quem tinha saudade do Karma ou até do Angra se sentirá agradado por esse disco que tanto merece elogios. Eis o grande lançamento do metal brasileiro de 2010: Origins.
Tracklist:
1. Origins (The Day I Died)
2. Lethal Awakening
3. Inferno Veil
4. Ego (Part I)
5. Ego (Part II)
6. Finnaly Home
7. Rising Up Your Life
8. No Mind
9. Blind Messiah
10. S.S.D. (Signed, Sealed & Delivered)
Bonus Track: 11. Kurenai (X Japan Cover)
Line-up:
Thiago Bianchi - vocal
Léo Mancini - guitarra
Fernando Quesada - baixo
Ricardo Confessori - bateria
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